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20 de outubro de 2009

Telefone sem fio


Um problema crescente que acontece quando tentamos identificar a função de um gene me lembrou uma brincadeira de criança: o telefone sem fio! Aquela brincadeira onde as crianças sentam-se uma do lado da outra e a primeira da fila diz uma mensagem (bem baixinho) no ouvido da segunda que deve repetí-la para a terceira até chegar a última que tem que dizer a mensagem em voz alta, que geralmente já está bem diferente da original! É a velha história do "quem conta um conto, aumenta um ponto"! O mesmo tem acontecido com a anotação funcional de genes, o processo de identificação das funções associadas a um gene.


Atualmente, uma quantidade enorme de sequências de DNA está sendo produzida e depositadas nos bancos de dados, que já contém um número absurdo de sequências . Vários genomas já foram concluídos, outros tantos estão em andamento, assim como muitos projetos de sequenciamento de mRNA (cDNA). Isso tudo é muito bom, é claro! Mas um dos principais problemas atuais é lidar com esta quantidade imensa de informação e identificar onde estão os genes e quais as suas funções, como já discuti um pouco aqui.

Quando o sequenciamento de DNA não era ainda um "lugar-comum" e, consequemente, a velocidade com que novas sequências surgiam não era tão grande como hoje, muitos dos genes tinham sua função estudada experimentalmente,de maneira mais minuciosa. Mas em um mundo onde milhares de sequências podem ser produzidas por dia, não é mais possível fazer isso para todas as sequências geradas. 

Como a sequência de DNA determina a sequência de aminoácidos das proteínas e a função destas, em geral, depende da sua sequência, proteínas que tenham a mesma função, também devem ter a mesma sequência! Ou, ao menos, devem ser bem parecidas! E surge a era do "comparar para identificar", pois similaridade pode indicar homologia!Assim, hoje em dia ,quando identificamos uma nova sequência gênica, tentamos achar nos bancos de dados se já existe alguma outra sequência similar com uma função conhecida. O passo crucial é decidir se esta similaridade basta para dizermos que a nossa sequência até então desconhecida deve ter realmente as mesmas funções daquela com que é parecida. Para isso existem critérios, mas nem todos usam os mesmos critérios. Uns são extremamente rígidos enquanto outros deixam a coisa "correr solta". 


E assim começa o problema que chamei de "telefone sem fio":


Um primeiro pesquisador deposita no banco de dados uma sequência X, à qual atribuiu a função Y através de experimentos.

Um segundo pesquisador, com uma nova sequência em mãos (Z), descobre que ela é extremamente similar ao gene X e, então, inclui a nova sequência Z no banco de dados, como um gene de função Y também. 


Um terceiro pesquisador, com mais uma sequência nova (W), descobre que ela tem alguma similaridade com a sequência Z, mas esta similaridade não é tão grande assim, mas se encaixa nos "critérios" frouxos que ele estabeleceu. E ele também atribui à sua sequência W, a função Y, uma anotação possivelmente errada.


Um quarto pesquisador, por tabela, atribui à sua sequência N, extremamente similar a W, a função Y. Apesar de a similaridade ser verdadeira neste caso e de as sequências W e N serem provavelmente de fato homólogas, a função associada à elas é errada. 



 
 Cada cor representa um  nucleotídeo. Notem que os genes X e Z são bem semelhantes, enquanto que os genes Z e W, não, mas mesmo assim foram designados como homólogos e como tendo a mesma função. Os genes W e N são bastante semelhantes e, provavelmente, homólogos, mas não são homólogos de Z e X e, por isso, foram erroneamente identificados com a função Y (a função original de X). Pode parecer complicado, mas é apenas uma cadeia de comparações para ver quem é parecido com quem.


E esse erro vai ser passado para frente. E novos erros podem ser introduzidos nesta cadeia. Quanto mais perto da última "criança da fila", maior a chance de estar inferindo uma função errada.

Este problema tem sido agravado por ferramentas de "anotação eletrônica", usadas para identificar a função de novas sequências através de resultados de similaridade com sequências conhecidas, sem nenhuma avaliação manual feita por um pesquisador que poderia identificar casos onde a associação feita não é verdadeira.


Isso não quer dizer que não devemos lançar mão destas ferramentas. Elas são a única saída quando se tem 100, 1000 e até centenas de milhares de sequências em mãos. Mas temos que ser cuidadosos, não relaxar nossos critérios.

O Blast2GO sobre o qual já tanto falei aqui, mas nunca expliquei bem, é uma ferramenta para a anotação funcional de genes, principalmente de organismos modelo não tradicionais, como a ostra e a vieira que estudo. Como não há projetos genoma para estas espécies e outras  próximas é ainda mais difícil identificar suas sequências e os resutados das buscas por similaridades geralmente indicam sequências de organismos distantes filogeneticamente. Então, o cuidado tem que ser redobrado!

Através do Blast2GO é possível submeter as novas sequências a buscas por similaridade usando o algoritmo BLAST. O programa então identifica quais são as funções associadas às sequências similares, resultantes do BLAST, em diversos bancos de dados: os de termos de ontologia gênica (uma iniciativa bem legal, sobre a qual  um dia, ainda escreverei aqui), o de domínios conservados - regiões das proteínas que são particularmente importantes para alguma função - o banco de dados de enzimas, de vias metabólicas e por aí vai...

E a última etapa do Blast2GO é anotação funcional. Anotar ou não anotar, eis a questão. E neste momento, o blast2go é inovador, com a sua "regra de anotação". Para decidir se cada sequência deve ser associada a uma ou mais funções, o programa usa uma fórmula para determinar a anotação mais específica. Esta fórmula considera não apenas a percentagem de similaridade entre as sequências, como também o código de evidência, que indica de que forma aquela função foi atribuída a sequência similar ("a criança que estava antes na fila") penalizando anotações eletrônicas e dando pontos extras a anotações experimentais. Existindo ainda outras possibilidades de evidência para as quais se pode atribuir diferentes pesos na regra de anotação.


Assim, o Blast2GO nos ajuda a lidar com o problema do telefone sem fio, permitindo que se pese as evidências antes de bater o martelo e concluir a anotação. E é claro, sem perder a praticidade, milhares de sequências podem ser processadas por vez. Mas a regra de anotação é aberta e o pesquisador pode modifica-la de acordo com seus critérios. Então, o bom senso é e sempre será essencial.


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Para saber mais sobre o Blast2GO: http://www.blast2go.org

Papers:


Stefan Götz, Juan Miguel García-Gómez, Javier Terol, Tim D. Williams, María José Nueda, Montserrat Robles, Manuel Talón, Joaquín Dopazo and Ana Conesa. High-throughput functional annotation and data mining with the Blast2GO suite.Nucleic Acids Res. 2008 June; 36(10): 3420–3435.

Ana Conesa, Stefan Götz, Juan Miguel García-Gómez, Javier Terol, Manuel Talón and Montserrat Robles. Blast2GO: A universal tool for annotation, visualization and analysis in functional genomics research.Bioinformatics 2005 21: 3674-3676


17 de outubro de 2009

Quantos genes você tem?


ResearchBlogging.org
Não necessariamente a mesma quantidade que eu! Nós temos todos os mesmos genes, mas não necessariamente a mesma quantidade deles. E isso pode fazer muita diferença! Deixe-me explicar.

Já sabemos que existem diferenças na sequência de DNA de diferentes pessoas. Afinal de contas, alguns de nós são altos, outros ruivos, outros tem olhos azuis enquanto muitos tem olhos castanhos. Vemos sempre nos telejornais e programas de TV que o DNA pode diferenciar você de qualquer outra pessoa na face da terra com 99,99% de confiabilidade.
Até então, sabíamos que existiam variações pequenas na sequência de DNA, ás vezes, de apenas um nucleotídeo, as "letras" do alfabeto do DNA. Sabíamos que algumas regiões do genoma poderiam estar organizadas de forma diferente em alguns indivíduos e que as pessoas podem possuir um diferente número de cópias de pequenas sequências que se repetem no genoma.
A novidade está em o quanto e como o DNA de diferentes indíviduos se distingue. Quando o projeto genoma humano foi concluído em 2003, acreditava-se que a diferença genética entre os indivíduos fosse algo em torno de 0.1-1%. Agora, a estimativa é que as diferenças cubram 5% do genoma humano. Parece pouco, mas não é, considerando-se que temos 3 bilhões de nucleotídeos constituindo nosso genoma. Mas a que se deve este aumento? A variação no número de cópias de algumas regiões do DNA.
Nós possuímos duas cópias de cada um dos 22 diferentes tipos de cromossomos chamados autossômicos, mais dois cromossomos sexuais: dois cromossomos X, se você for menina ou um cromossomo X e outro Y, se for menino. Portanto, temos 23 pares de cromossomos e a princípio herdamos duas cópias de cada um dos genes do genoma humano.
No entanto, estudos feitos nos últimos anos mostram que é bastante comum pessoas possuirem diferentes números de cópias de trechos do DNA que podem conter nenhum, um ou vários genes conhecidos. Por exemplo, nas populações européias e americanas, pessoas podem ter entre 2 e 15 cópias do gene AMY1 que codifica a amilase salivar, enzima presente na saliva e que digere amido.
Mas quais são as consequências funcionais destas variações? Depende dos genes que temos a mais ou a menos, assim como de onde as cópias extras estão localizadas no genoma, mas isso é assunto para mais um texto. No entanto, cientistas acreditam que estas variações podem aumentar a suscetibilidade dos indivíduos a doenças, como o câncer, algo que tem sido extensivamente estudado. Um exemplo das consequências funcionais deste tipo de variação é o caso do gene CYP2D6 que afeta o metabolismo de aproximidamente 50% das drogas, como analgésicos, antihistamínicos, antipsicóticos, etc, e apresenta uma grande variação de número de cópias entre indíviduos contribuindo em muito para a grande diferença observada entre as pessoas em relação ao metabolismo de tais medicamentos.
Tudo isso reforça o quanto o genoma é dinâmico, o quão pouco ainda o entendemos e que não basta apenas conhecermos a sequência de "letras" do DNA. Mas isso só significa que ainda temos muito a descobrir e muito trabalho a fazer!

Referências:
Wain, L., Armour, J., & Tobin, M. (2009). Genomic copy number variation, human health, and disease The Lancet, 374 (9686), 340-350 DOI: 10.1016/S0140-6736(09)60249-X

Dear, P. (2009). Copy-number variation: the end of the human genome? Trends in Biotechnology, 27 (8), 448-454 DOI: 10.1016/j.tibtech.2009.05.003