Mostrando postagens com marcador divulgação científica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador divulgação científica. Mostrar todas as postagens

3 de novembro de 2013

"Música para minhas ostras"




ResearchBlogging.orgEm um dos meus últimos textos, escrevi sobre os desafios que as ostras enfrentam por não poderem se locomover: quando algo no ambiente ao seu redor não vai bem, elas tem que lidar com isso, pois fugir não é uma opção. Mas algo que não mencionei é que as ostras não são sésseis durante toda a sua vida. Nos primeiros estágios do seu desenvolvimento, elas passam por fases larvais quando, apesar de não nadarem ativamente contra correntes, se movem verticalmente, para cima e para baixo, na coluna d'água. Nesta fase da vida, a larva tem que "tomar uma decisão" que irá determinar a sua sobrevivência: selecionar um local apropriado para se estabelecer, se fixar e continuar o seu desenvolvimento até a fase adulta e séssil. Um local para passar o resto da sua vida. Uma grande decisão! Como estas pequenas larvas, comparáveis a uma gota no oceano, conseguem fazer isso é uma pergunta que cientistas já vinham investigando, mas que ainda não sabem responder completamente.
Sabemos que as larvas conseguem processar alguns sinais físicos e químicos do ambiente, como salinidade, a presença de substâncias químicas e características como a textura da superfície. Mas estes são fatores que só podem ser avaliados em pequena escala, em uma pequena área, pré selecionada pela larva. É como procurar um apartamento para morar. Primeiro, você irá escolher um ou poucos bairros de preferência, em seguida, irá selecionar anúncios que parecem atender as suas necessidades de preço, espaço, etc, e, por fim, irá selecionar somente alguns apartamentos para visitar pessoalmente, pois seria impossível visitar todos os apartamentos a venda em uma grande cidade. Da mesma forma, seria impossível para uma larva inspecionar todo o fundo do mar, até encontrar um local apropriado para se fixar. Já que larvas não podem ligar para um corretor, como elas fazem isso?

Acontece que as ostras gostam de uma vizinhança barulhenta. Os recifes e outras zonas entremarés, locais preferidos pelas ostras, são ecossistemas que produzem bastante ruído. Ao contrário de outras áreas do fundo do mar, que não tem uma concentração grande de organismos, os recifes estão repletos de peixes e invertebrados que produzem ruídos tão altos que podem até ser ouvidos por mergulhadores. 

Pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte (EUA) se perguntaram se as larvas de alguma forma se guiam pelos sons emitidos por esses ecossistemas. Para testar esta hipótese, eles gravaram os sons de um recife de ostras e também de uma área sem recifes e viram que os perfis sonoros produzidos são realmente diferentes. No laboratório, eles fizeram testes com larvas em tanques, e viram que um maior número de larvas se fixou no substrato quando expostas aos sons característicos de um recife, do que quando expostas aos sons da zona sem recifes ou a som algum. Os pesquisadores também fizeram esse experimento no ambiente natural, colocando as larvas, em recipientes que somente o som atravessa, nas águas de um recife, e em uma área sem recifes. O mesmo resultado foi obtido! 

Tudo isso indica que o som é realmente um sinal importante para as larvas se estabelecerem no ambiente apropriado e, é possível que isso também se aplique a várias outras espécies animais que também passam pelo estágio de larva. Mais do que interessante, esta descoberta é importante para a conservação destas espécies, para projetos que buscam recuperar recifes de ostras, ameaçados em muitas partes do mundo, e levanta questões importantes sobre os impactos da poluição sonora em ambientes aquáticos. E como na ciência, uma resposta acaba criando novas perguntas, fica a questão: como as larvas percebem, processam e interpretam o som? 

-------------------------------------------------

Ficou curioso para saber como é o som dos recifes de ostras? Você pode ouvir as gravações feitas pelos cientistas neste site: http://www.dosits.org/audio/interactive/#/78

--------------------------------------------------
Referências:


Listen Up: Oysters May Use Sound to Select a Home: http://news.ncsu.edu/releases/oyster-sound/



19 de março de 2010

Aniversário: dois anos no ar!


Hoje, o RNAse Free completa dois aninhos no ar! E por uma coincidência bem legal é também a minha defesa de mestrado. Por esta razão, vou ficar devendo um post-científico-comemorativo. Mas é por boas razões :-)

Nos últimos 2 anos, compartilhei aqui muitas das coisas que aprendi, mas o blog também me serviu de incentivo para estudar e aprender coisas novas O que a princípio não me pareceu ser uma boa idéia, acabou me conquistando e, hoje, adoro postar!

Por mais que eu tente escrever também sobre coisas não relacionadas ao meu trabalho, eu não consigo fugir muito da biologia molecular e da genética. Não tem jeito: adoro! Depois destes 2 anos, me convenci que o blog é um espaço legal também para discutir algo tão específico. Por mais que não bata recordes de acesso, o blog é diariamente acessado  (média de 20/dia) e volta e meia faço novos contatos e troco idéias com outras pessoas da área.


Por isso, agora o RNAse Free está oficialmente vestindo a camisa da biologia molecular e genética (com pitadas de bioinformática para modernizar a coisa), agora que tenho pelo menos mais 4 longos anos nesta vida de bancada para encher o blog com posts sobre estes assuntos.

Mas além disso, eu quero este ano, FINALMENTE, tirar do papel a idéia de fazer um segundo blog, voltado para divulgação científica. Primeiro, porque eu gostaria de contribuir  com a divulgação da ciência produzida, principalmente, nas universidades brasileiras. Mas também porque, para escrever e manter um blog como este, eu vou ter que trabalhar muito a minha escrita e a minha capacidade de explicar as coisas de uma forma compreensível para pessoas-não-biólogas-moleculares (quase o mundo inteiro). E estas são habilidades que eu preciso melhorar! Vamos ver se desta vez sai! :-)

8 de outubro de 2009

Quebrem esta corrente!


Odeio correntes de internet. Todas elas. Sempre fico chocada com as inúmeras bobagens que circulam por aí e fico pensando como é possível alguém acreditar nestas coisas. Agora, acabo de receber um e-mail dizendo que se eu encaminhá-lo, o Bill Gates vai me pagar $243,0 para cada vez que o e-mail for novamente encaminhado. No mesmo e-mail, o "depoimento" de várias pessoas jurando de pé junto que é verdade, elas receberam um cheque com alguns milhares de dólares alguns dias depois! Para que trabalhar em um mundo em que para ficar rico basta encaminhar lixo para os amigos, não é mesmo? Mas não é o primeiro e-mail que recebo com este tipo de abobrinha. O que me chamou atenção, foi o que eles usaram nesse e-mail para dar "credibilidade" ao "fato":
"Saiu na revista Época repassem e lucre (sic), não é brincadeira"
"Muito estranho, mas recebi de várias pessoas confiáveis...
E mais, saiu na revista época!"

As pessoas acreditam na revista época (e similares como Veja, Superinteressante, etc). Embora eu não seja fã destas revistas, não estou dizendo que as mesmas só publiquem mentiras (apesar de que, quando publicam sobre ciência, as falhas serem frequentes). O problema é acreditar cegamente no que elas publicam. Falta senso crítico nas pessoas. Muita gente não se interessa por ciência a ponto de procurar por informações na internet e/ou revistas como estas e as poucas que o fazem não o fazem de forma crítica. Em parte, acredito que seja por que a maioria ainda vê a ciência com grande distanciamento, como algo que só os cientistas podem questionar ou criticar. Por isso, penso que um dos principais objetivos da divulgação científica tem que ser incentivar o questionamento e a crítica e ensinar critérios, o que, para mim, estão entre as melhores coisas que a ciência tem a oferecer e que de fato vai ajudar as pessoas a resolverem problemas e tomarem decisões de forma mais embasada no seu cotidiano....

...começando por usar de mais critérios ao escolher que e-mails encaminhar aos amigos! Correntes, não! 

"A ignorância afirma ou nega veementemente, a ciência duvida"
Voltaire

25 de março de 2009

Blog em crise e o caso "Ruth de Aquino"


Está difícil escolher sobre o que escrever no próximo post, não por falta de idéias, mas por excesso! Nas últimas semanas, baixei váááários artigos interessantes sobre assuntos que gostaria de discutir aqui. A maioria...mentira, todos são sobre genética molecular: controle espacial da expressão gênica, redundância genética, long non coding RNAs, transferência lateral de genes, além de alguns papers sobre o uso de técnicas moleculares na ecologia e na ecotoxicologia e também algumas questões mais metodológicas sobre clonagem e outras coisas que tenho feito...afe, eu realmente gosto de genética! Hoje estou mais certa disso do que quando eu fazia o bacharelado de genética hehehe

Bom, mas eu queria comentar sobre uma reportagem publicada na revista época de autoria da Sra. Ruth de Aquino, redatora chefe da revista em questão: “O besteirol na ciência é melhor que no senado - Ler sobre pesquisas científicas de universidades respeitadas é uma receita certa para dar risada.” Eu não leio esta revista, mas infelizmente muita gente a lê. Fiquei sabendo sobre a reportagem nos blogs discutindo ecologia e brontossauros em meu jardim. A autora tenta ridicularizar a ciência através de argumentos fracos e resumindo-a a meia dúzia de estudos de meia tigela que infelizmente existem por aí. O problema é que muita gente lê esta bendita revista e nem todos os leitores são críticos o suficiente para perceber as falácias na reportagem. Mas isso tudo me faz pensar em como ainda há uma grande carência de divulgação científica digna no Brasil, de meios que discutam e levem a ciência até a sociedade, até as pessoas que não são cientistas e que não estão na universidade, mas que financiam o que é feito dentro dela. A ciência não é apenas para os cientistas e produz conhecimento que é do interesse de todos. Acho que é obrigação de quem está numa universidade pública e fazendo ciência com verbas públicas dar este retorno a sociedade. E tendo como exemplo a reportagem citada, a primeira lição que eu acho que a ciência tem a ensinar as pessoas em geral é a serem críticos. Quando se lê ou assiste qualquer coisa, antes de tomá-las como verdade, temos que ser críticos e questionar os argumentos mostrados (quando existem!). Pensar e questionar antes de se deixar convencer. Não é por que está na revista época, ou na revista X ou na TV que são sempre informações corretas. Em relação à ciência, então, é onde mais se fazem interpretações grosseiramente erradas...

Eu tenho visto muitos blogs de divulgação científica legais. Embora a internet não alcance a todos é uma boa ferramenta, considerando que atualmente somos mais de 20 milhões de brasileiros conectados. Mas este blog não é um blog de divulgação científica, pois não escrevo para um público leigo. Na verdade, sinceramente, eu não penso muito em quem vai lê-lo, pois eu sei que praticamente só 3.45 pessoas o lêem (e de vez em quando) hehehe. Além do que, a idéia inicial era fazer um blog para discutir protocolos, como "sugestão" do meu querido orientador Mauro. Mas é um bom exercício. E gostei desta coisa de blog! hehe mas diante disso tudo pensei em de repente tentar fazer um blog de divulgação científica de verdade, para “não cientistas”. Não seria muito, não alcançaria muita gente, mas já seria alguma coisa...além de um desafio para mim, escrever sobre ciência em uma linguagem compreensível para as pessoas em geral. A primeira parcela do meu débito com a sociedade. Vamos ver se eu dou conta! Enquanto isso, continuarei escrevendo “para as paredes” aqui sobre assuntos que interessam a mim e meia dúzia de pessoas no mundo todo...hehehe